Conheça a história de um dos criadores do protocolo RIST
Formado pelo ITA, com doutorado em Stanford, Ciro Aloísio Noronha Júnior concedeu entrevista exclusiva à equipe do Top C-Level

Editado por Gabriel Cortez, jornalista da equipe de conteúdo do Top C-Level, com informações de Fernando Lopez Cisneros, diretor de Broadcast Business Development na Fernext

Natural de Belo Horizonte, Minas Gerais, o Dr. Ciro Aloísio Noronha Júnior é bacharel e mestre em Engenharia Elétrica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, e doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Stanford. Trabalha na área de compressão de vídeo sobre IP desde 1995 e já ocupou cargos de gerenciamento de engenharia na Optivision, SkyStream, Tandberg Television e Ericsson, tendo liderado o desenvolvimento de diversos produtos de compressão e rede, incluindo codificadores, decodificadores, transcodificadores, gateways e multiplexadores.

Em 1999 e 2001, foi nomeado Professor Consultor no Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Foi um dos fundadores da ImmediaTV Corporation, adquirida pela Cobalt Digital em 2016.

Na Cobalt Digital, atuou como Vice-Presidente Executivo de Engenharia e, recentemente, dias antes do IBC 2022, foi promovido à CTO da companhia. É, também, presidente do Fórum RIST, tendo contribuição significativa para a criação do Protocolo RIST, além de ser autor ou coautor de diversos trabalhos acadêmicos e possuir sete patentes emitidas.

Em entrevista exclusiva ao Top C-Level, o Dr. Ciro Aloísio Noronha Junior conta detalhes de sua trajetória. “Nasci e cresci em Belo Horizonte, Minas Gerais. Em 1981, terminando o curso técnico de eletrônica, entrei no ITA, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, onde me formei, em 1985. Trabalhei um tempo na indústria no Brasil, na antiga ELEBRA Telecom, projetando equipamentos e foi aí que eu entrei para a área de comunicações.”

“Quando me formei no ITA, tinha duas coisas que eu gostava: Controle e Telecomunicações. Eu gostava mais de Controle, mas a minha a vida me levou para a área de Telecomunicações. A partir do estudo de Redes de Computadores, no Mestrado do ITA – completado em 1988 -, eu fui para Stanford, estudar na Universidade de Stanford, na Califórnia, para fazer doutorado. A minha área, na época, era Rede de Computadores. Terminando o doutorado, eu já estava trabalhando em tempo parcial em uma companhia chamada Optivision”, lembra.

Bacharel e mestre em Engenharia Elétrica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica, o ITA, Ciro Aloisio Noronha Junior é doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade de Stanford / Foto: Arquivo Pessoal
1996: o primeiro, ou um dos primeiros, encoder e decoder IP

Na Optivision, inicialmente, Ciro trabalhava com redes de fibra óptica, mas, a empresa tinha também uma divisão de vídeo. “Na época, era o padrão MPEG-1 e, aí, resolveram tentar transmitir um vídeo por rede. A direção da empresa sabia: ‘quem entende de rede é o Ciro, vai lá que é um projeto para eles que conhecem, comentou meu diretor à época. Aí, a gente fez um encoder e decoder que é, provavelmente, um dos primeiros ou o primeiro link sobre IP com correção de erro com transmissão de pacotes, e isso se deu em 1996. Eu tenho um documento que mostra como fazer retransmissão, que é simplesmente você reconstruir o pacote, se você não receber com o pacote de qualidade igual. Isso tudo aconteceu muito antes de existir o protocolo RTP e muito antes de existir SMPTE 2022-1, por exemplo.”

Logo depois, Ciro atuou como diretor de software na SkyStream. “A gente começou a desenvolver um produto para as Telecoms que também teve bastante sucesso, chamava-se Mediaplex. A solução tinha multiplexador, tinha transcoder, tinha muitas funcionalidades. Eu fiquei na empresa por dez anos. De lá, saí e, durante esse período, também voltei para a Universidade de Stanford, como Professor Consultor. Por duas vezes, me convidaram para dar o Mestrado em Redes de Computadores, e eu aceitei.”

A empresa SkyStream, onde Ciro trabalhava ao mesmo tempo em que dava aula em Stanford, foi comprada pela Tandberg Television em 2006.  No ano seguinte, a Tandberg Television foi comprada pela Ericsson. “Naquele momento, eu era vice-presidente de engenharia do grupo, que tinha sido SkyStream até a Ericsson comprar. A partir de então, investi em fundar a minha própria companhia, a ImmediaTV, dedicada às soluções de compressão de vídeo e ao desenvolvimento de encoders. A companhia cresceu e, em 2016, eu a vendi para a Cobalt, onde eu estou atualmente. A Cobalt já fazia OEM do produto que desenvolvemos na ImmediaTV. Ele já era oferecido como parte da solução da Cobalt, então foi uma coisa natural.” 

Em 2019, Ciro foi alçado à vice-presidente executivo de engenharia da Cobalt e, mais recentemente, dias antes do IBC 2022, promovido à CTO do grupo. “Em 2019, também, nós recebemos um Emmy técnico justamente pelo trabalho na parte de retransmissão de pacotes de transmissão pela internet, chamado de ARQ. Basicamente, não é uma coisa muito difícil. O pacote não vem. Você pede. Há vários vídeos no YouTube que explicam isso, mas foi o que eu tinha feito em 1996, na primeira implementação, aí, somamos esforços junto com outras companhias que tinham um produto comercial.”

Protocolo RIST e as contribuições à indústria

Ciro comemora o fato de, nos últimos anos, ter mais tempo para contribuir com o desenvolvimento de normas e padrões que beneficiam a todo o mercado. “Uma coisa que eu gosto muito da Cobalt é que eu tenho tempo para fazer outras coisas, não simplesmente fazer o produto e fazer a entrega do produto, também tenho um tempo para contribuir para a indústria.” 

Em 2017, foi criado o Reliable Internet Stream Transport (RIST) Activity Group, pelo VSF. “A ideia era projetar um protocolo comum para a transmissão pela Internet de forma que você pudesse comprar o equipamento que você quisesse. Então, comecei a participar desse grupo desde o início. O RIST, basicamente, é o que eu já tinha feito na Cobalt, o protocolo que eu tinha projetado foi adotado como parte do RIST, com algumas modificações, que era protocolo RTP mais uma camada de retransmissão. Obviamente teve contribuições de várias outras companhias, mas essa foi a base.” 

Atualmente, na parte técnica, Ciro é, também, editor das especificações do RIST, além de ser o presidente do Forum RIST. “O que sai lá escrito é o meu trabalho. A gente decide juntos, mas a parte final, de escrever as especificações, é minha, a contribuição técnica para o grupo. Na parte de marketing, a gente criou uma organização que se chama RIST Forum, com o objetivo de promover o protocolo. Estou ao lado da Suzana Brady (também brasileira), que é a chairperson do Forum RIST e vice-presidente sênior de vendas e marketing da Cobalt Digital.” 

O trabalho com o protocolo RIST não “terminou”, explica. “A gente fez o RIST Simple Profile em 2018, o RIST Main Profile em 2020 e os Advanced Profile em 2021. Agora, a gente está expandindo em outras áreas. Tem um processo de desenvolvimento para acrescentar tecnologia.”

Sincronização de decoders e o futuro do RIST

Na NAB 2022, Ciro conta que fez uma apresentação sobre sincronização de decoders no Broadcasting Engineering and IT Conference: “Quando você tem vários sinais de vídeo que chegam juntos, em vários encoders, eles têm que sair juntos, sincronizados nos decoders, o que é importante para esportes, uma vez que você tem várias câmeras. Ou, aqui nos Estados Unidos, têm muito na parte de igreja, onde você normalmente tem várias câmeras, o pastor ou padre está andando por aqui e por ali, e eles transmitem às vezes para uma igreja secundária, não é pela internet. Tem que sair junto daquela experiência completa, é uma coisa importante fazer de forma padronizada, de forma não sincronizada.”

“Na Cobalt, em geral, nós usamos padrões e normas internacionais, contribuímos para essas normas.  Fazemos parte das organizações internacionais de padrões para mídia e televisão. Participamos e patrocinamos seminários de tecnologia. É tudo dentro das normas internacionais. Quando a gente ganha no mercado, é pela qualidade do nosso produto, não porque a gente desenvolveu uma tecnologia proprietária.”

As normas técnicas, detalha ainda Ciro, descrevem como um equipamento se conecta a outro, como o sinal é formado, como o sinal é recebido, se o equipamento interopera com o equipamento do outro fabricante. “Nós temos um plano para o futuro que tem várias coisas, o principal a gente já fez. Agora, nós vamos trabalhar para fazer com que a coisa fique mais ‘fácil’. Estou nesse plano. A sincronização dos decoders já está pronta. Eu só tenho que terminar de escrever a norma. A gente tem a adaptação de um encoder a caminho, adaptar o caminho quando você tem várias possibilidades.”

 O RIST Relay é um desses “caminhos” possíveis, segundo o professor. “Quando você tem um encontro central na internet, em que você pode, por ele, simplificar a parte de TI, chamamos isso de ‘RIST Relay’. Não é porque é mais simples e pode ser que você não precise se conectar que precisa deixar entrar na sua rede, conectar-se para ‘fora’ é muito mais fácil. É aí que está a parte de segurança. É exato? Não é. Então, nós temos uma solução para isso.” 

Ainda sobre o futuro, Ciro reforça a importância de se investir em ações de marketing e comunicação que possibilitem a implementação das normas e padrões técnicos desenvolvidos. “Esse futuro imediato na parte técnica e na parte de marketing é mandar a mensagem, é fazer eventos, porque, na realidade, o que a gente precisa na parte de marketing é impulsionar a adoção das normas. A gente começou em 2017. Em 2022, graças ao trabalho que a Suzana está fazendo, nós já temos mais de 200 companhias no Fórum RIST. Poucas pessoas no Brasil me conhecem, mas o Dr. Ciro Noronha é um brasileiro de uma posição tão destacada no mercado de broadcasting.”

Emmy técnico recebido em 2019, na Cobalt Digital, pelo trabalho de retransmissão de pacotes de transmissão pela internet | Foto: Arquivo pessoal

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