Novos modelos de negócio: D2C pode acabar com o B2B2C?

Especialistas colocam em debate os desafios para distribuição de conteúdo no Brasil, em meio ao avanço do streaming, à cultura da pirataria e ao ambiente de consumo cada vez mais multiplataformas

Por Gabriel Cortez,
Jornalista do conselho editorial do Top C-Level

O webinar “Novos modelos de negócios ligados à distribuição de conteúdo”, realizado pelo grupo Top C-Level em 16 de setembro, colocou em discussão os desafios vivenciados por operadores, agregadores e programadores de conteúdo em um cenário de consolidação do streaming. A necessidade de monetização em meio à busca por novos modelos de negócio, a pirataria e a cultura da gratuidade de acesso aos conteúdos na internet, além das dimensões continentais do país, foram apontados como desafios à cadeia produtiva.

Alexandre Britto, CEO da ABX Consulting e presidente da Abotts, iniciou o debate com uma provocação, questionando se o modelo D2C (Direct To Consumer) poderá acabar de vez com o B2B2C (Business To Business To Consumer). Com o D2C, lembrou Britto, as programadoras podem entregar direto para o consumidor final, em um modelo que apresenta vantagens e desvantagens.

Em sua opinião, porém, “não dá simplesmente para se virar uma chave e dizer que não se precisa mais de uma operadora. Há todo um legado que se criou na cadeia, com produtora, programador, operadora, consumidor final. Agora, no final das contas, o que vale é o que o consumidor quer. Se tem mais qualidade, é mais barato, ele vai por ali. Mas, se você tiver que assinar todas as plataformas de streaming, certamente vai sair mais caro”, introduziu. 

Painel contou com a moderação de Alexandre Britto e as participações de Carlos Alkimim, diretor da Simba Contents; Fábio Renato, CEO da Você Telecom; e Fábio Damásio, diretor da Singular CDN

Carlos Alkimim, diretor de contratos e distribuição da Simba Contents, joint venture criada pela Record, RedeTV e SBT em 2017, lembrou que o grupo passou a operar efetivamente em 2018 em todo segmento de TV por assinatura e, no início de 2021, entrou no streaming. “A nossa missão é estar, a qualquer momento, em qualquer tela, entregando conteúdo de qualidade aos brasileiros. No final do dia, a questão é: o que o consumidor quer e quanto ele está disposto a pagar? Ele sempre vai querer a melhor qualidade e o menor preço. Agora, qual é esse limite?”, problematizou.

Carlos Alkimim, diretor da Simba Contents

Os desafios são múltiplos, na visão do executivo. “A Disney, por exemplo, tirou todo seu conteúdo do Netflix. Se você quer assistir a um determinado conteúdo, precisa assinar determinado streaming. Isso, lá na frente, quando o consumidor fizer a conta, vai perceber que estará pagando muito mais caro e precisará se desconectar de uma plataforma para se conectar a outra. Será que não daria para juntar tudo e entregar em um produto só? Eu acho que ainda não chegamos no modelo final. Os desafios, enquanto grande provedor de conteúdo, são múltiplos. Mas muito já foi feito. Precisamos de mais investimento, mais trabalho e mais tecnologia para chegar lá na frente e encontrar o modelo que vai se consolidar no futuro”, concluiu Alkimim.

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Fábio Damásio, da Singular CDN, acredita que os modelos D2C e B2B2C vão coexistir ainda por um tempo. “Vai acabar a TV Linear? Não! Os públicos vão coexistir. Mas eu sou entusiasta da ideia de multiplataforma”, afirmou. O desafio da tecnologia e dos modelos de negócio, na opinião de Britto, é justamente esse: coexistir. “As operadoras assumiram mais um papel agora também agregando a parte de conteúdos”, lembrou.  

Fábio Renato, da Você Telecom, crê que o mercado de entrega de conteúdos tradicional, do empacotamento de canais, chegou a um ponto de inflexão. “A forma de entregar conteúdo tem mudado. O modelo precisa ser pensado a partir de preços. O empacotamento também precisa ser repensado. Pode-se, por exemplo, dividir em categorias e vender essas categorias ao assinante: ‘Filmes’, ‘Notícias’, ‘Variedades’. O mercado hoje é aquilo que o assinante quer assistir. Também é possível empacotar por programadora e deixar o assinante escolher quais programadoras quiser. Precisamos urgentemente flexibilizar. O assinante não vai ficar saindo de um aplicativo e entrando em outro para acessar conteúdo”, argumentou. 

Pirataria, monetização e a cultura de conteúdos gratuitos na internet

Um outro aspecto que precisa ser tratado com seriedade, na visão de Fábio Renato, da Você Telecom, é a pirataria. “Hoje, inclusive o conteúdo ao vivo tem sido objeto de piratraria, de forma ostensiva. Às vezes, você tem juízes, delegados, que usam um box pirata e acham que não é crime. Precisamos conversar sobre isso. Com o avanço da velocidade de banda de internet, tanto o conteúdo VoD quanto o ao vivo conseguem ser pirateados e, com o Marco Civil da Internet, as empresas não podem fazer absolutamente nada, a não ser que haja uma ordem judicial. O modelo precisa ser repensado urgentemente no Brasil. Se não mudar, quem vai assumir esse ônus são as operadoras e programadoras”, alertou. 

Alexandre Britto, CEO da ABX Consulting e presidente da Abotts

Alexandre Brito, no papel de moderador do painel, reforçou que, em um contexto de disrupção, e em um país continental como o Brasil, no qual “tudo que está na internet é considerado ‘gratuito’, a monetização precisa ser debatida, sim, considerando-se a pirataria”. O tema precisa ser discutido em todos os âmbitos da cadeia, na opinião de Carlos Alkimim. “Ela é prejudicial a todos. Se não combatermos a pirataria, ela vai acabar com o nosso negócio. A Simba foi criada há três anos e meio e o mercado de TV por assinatura já estava segmentado e regredindo. As três emissoras foram ao CADE pedir autorização para funcionar e uma das ofertas que fizemos foi: ‘para os 3% de operadoras SEAC, nós vamos entregar a custo zero, para que não onere ainda mais esses pequenos operadores’. Veio, então, o SVA, Serviço de Valor Adicionado. Para esse segmento, não existe a grande operadora”, frisou.

“Existe um erro de interpretação quando se diz que ‘o sinal é gratuito’ no Brasil. Quando você captura o sinal de satélite, ele é entregue de forma gratuita”, acrescentou o diretor da Simba. “Quando uma Pessoa Jurídica capta esse sinal, codifica ele, transforma em IP e coloca junto a um produto dela, como valor agregado ao seu cliente, auferindo receita, esse sinal deixou de ser aberto, deixou de ser gratuito e precisa ser precificado pelos direitos autorais daquele conteúdo. Quando um ISP capta sinal da Record, SBT, RedeTV, ele precisa remunerar. O custo disso precisa ser racional e é aí que está o desafio. A pirataria afeta toda a cadeia de negócios do audiovisual. Todo consumidor que está pirateando um sinal e não remunerando os direitos autorais está depredando, ao longo do tempo, aquele conteúdo que ele tanto gosta. As emissoras têm um custo para produzir aquele conteúdo. O operador de ISP, o operador de Pay TV, eles têm um custo. A rede de entrega tem um custo. Quando se deixa de remunerar um desses custos da cadeia, afeta-se a todos, lá na frente.” 

Inovação, criatividade e isonomia entre ISPs 

A inovação foi apontada como uma forma de superar os desafios impostos à indústria audiovisual. Na opinião de Fábio Damásio, da Singular CDN, é necessário que os players usem a criatividade. “A pirataria sempre vai existir. Cabe a nós entendermos isso e buscarmos as oportunidades. Fizemos um evento de futebol, recentemente, em que era possível clicar para apostar, durante a transmissão. Imagine um evento em que você sorteie a camisa de um jogador para o assinante? Quem estiver assistindo via link pirata não terá acesso a isso. O desafio da pirataria e de entregar conteúdo de qualidade em um país continental é pensar fora da caixa para deixar o usuário satisfeito”, concluiu. 

Fábio Damásio, diretor da Singular CDN

Um modelo de negócio que é muito pouco falado no país, na visão de Fábio Renato, da Você Telecom, é o AVod (Advertisement Vod), ou seja, a entrega gratuita dos conteúdos ao consumidor, com a remuneração vindo exclusivamente por parte dos anunciantes. “Existem diversos modelos em estudo e tudo isso tem um custo altíssimo. O modelo para entregar ao assinante precisa mudar. Não seria interessante pensarmos em entregar fora da caixa do empacotamento, por um valor mais acessível, para mais pessoas? As pessoas estão pagando cursos à distância pela internet, pagam para acessar conteúdos jornalísticos, pagam para jogos. São diversos conteúdos pagos. É preciso haver essa conversa. Tudo hoje pode ser comercializado na internet. Precisamos trabalhar o modelo para isso.” 

Fábio Renato, CEO da Você Telecom

Para Fábio Renato, o modelo da isonomia entre os ISPs é o que vai fazer com que o mercado fique perene e alcance o maior número de lares. “Isso vai ser possível com cada ISP chegando na ponta. São 15 mil empresas no Brasil que atendem esse mercado e não existe um dono, graças a um processo que foi feito nos anos 90. O fato de ter fibra óptica hoje, por exemplo, é graças ao livre mercado. Eu vejo um mercado ainda com muitas possibilidades de investimento para proporcionar ao usuário consumir conteúdo audiovisual com qualidade. Eu sou otimista. O mercado tem muito a crescer. O que nós queremos é entregar qualidade”, frisou.

Carlos Alkimim ressaltou, ainda, que a Simba foi constituída para entregar conteúdo com qualidade em todo Brasil. “A gente pretende entregar esse conteúdo por streaming, simulcast, numa tela de celular, de computador, ou em qualquer plataforma onde o nosso público estiver. Vamos buscar parceiros, ISPs, provedores, e vamos atuar junto a eles. A Simba quer estar desde o ISP que tem 500 assinantes até o quem tem 500 mil assinantes. Queremos entregar conteúdo e entretenimento de qualidade a todos os brasileiros, em todo país”, encerrou. 

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